A Importância da dosagem da Frutosamina no manejo de cães e gatos diabéticos.
- Adilson Kleber Ferreira
- 21 de ago.
- 5 min de leitura

A dosagem de frutosamina é um exame laboratorial fundamental no diagnóstico e monitoramento do diabetes mellitus (DM) em cães e gatos.
Como marcador glicêmico de médio prazo, a frutosamina reflete a média das concentrações séricas de glicose dos últimos 7 a 21 dias, fornecendo informações mais consistentes do que a glicemia pontual, especialmente em situações onde o estresse influencia os valores glicêmicos. Este artigo aborda a fisiologia, os princípios bioquímicos da frutosamina, sua importância clínica e laboratorial, indicações, limitações, interpretação dos resultados e correlação com outras metodologias de avaliação glicêmica. Serão discutidas ainda as evidências científicas que embasam seu uso na medicina veterinária e as aplicações práticas para o clínico veterinário.
1. Conceito e Fisiologia da Frutosamina
A frutosamina é o nome genérico para um grupo de compostos formados pela reação não enzimática da glicose com proteínas plasmáticas, principalmente a albumina. Esse processo, conhecido como glicação, resulta na formação de cetoaminas estáveis.
A concentração sérica de frutosamina reflete diretamente o nível médio de glicemia durante o tempo de vida da proteína glicosilada. Diferentemente da hemoglobina glicada (HbA1c), amplamente usada na medicina humana, a frutosamina é mais aplicável aos animais de companhia devido à vida média curta das proteínas plasmáticas.
Em cães e gatos, a meia-vida da albumina é de aproximadamente 8 a 14 dias, o que permite à frutosamina refletir o status glicêmico das últimas 1 a 3 semanas.

2. Princípios Bioquímicos do Exame
O método laboratorial para a dosagem de frutosamina geralmente baseia-se na reação de redução do corante nitrotetrazólio azul (NBT). Neste ensaio, a frutosamina reduz o NBT a formazana em um ambiente alcalino, sendo a intensidade da cor resultante diretamente proporcional à concentração de frutosamina no soro.
O exame é simples, de baixo custo e pode ser realizado em amostras de soro sem necessidade de jejum rigoroso, uma vez que a frutosamina reflete o controle glicêmico de médio prazo e não sofre variações diárias agudas.

3. Importância da Frutosamina no Diagnóstico e Monitoramento do Diabetes Mellitus
3.1 Papel no Diagnóstico do Diabetes Mellitus
Em cães e gatos, o diagnóstico do DM é baseado na presença de sinais clínicos (poliúria, polidipsia, polifagia, perda de peso), hiperglicemia persistente e glicosúria. No entanto, em gatos, a hiperglicemia de estresse pode confundir o diagnóstico, levando a interpretações equivocadas.
A dosagem de frutosamina permite diferenciar a hiperglicemia transitória da hiperglicemia persistente:
Hiperglicemia de estresse: eleva temporariamente a glicemia, mas não altera significativamente a frutosamina.
Diabetes mellitus: resulta em elevação persistente da glicemia e consequente aumento da frutosamina.
Estudos, como o de Crenshaw et al. (1996), demonstram que a frutosamina é um parâmetro sensível e específico para diferenciar essas condições em gatos.
3.2 Monitoramento do Controle Glicêmico
O principal objetivo do tratamento do DM é manter os níveis glicêmicos dentro de uma faixa que evite hipoglicemias e minimize as complicações associadas à hiperglicemia crônica. O monitoramento contínuo é fundamental, e a frutosamina se mostra uma ferramenta eficiente ao refletir o controle glicêmico de médio prazo.
A dosagem periódica de frutosamina permite avaliar se o protocolo terapêutico atual (dose de insulina, tipo de insulina, manejo alimentar) está sendo eficaz.

4. Valores de Referência e Interpretação dos Resultados
Os valores de referência da frutosamina podem variar entre laboratórios, métodos de análise e espécies:
Espécie | Frutosamina Normal | Frutosamina Elevada |
Cães e Gatos | 135 - 350 µmol/L | > 400 µmol/L |
4.1 Valores Aumentados
Indicativos de hiperglicemia crônica
(> 400 µmol/L).
Podem refletir:
Diabetes mellitus mal controlado
Falha no ajuste de dose de insulina
Resposta insuficiente à terapia instituída
Hipercortisolismo (Síndrome de Cushing)
Uso prolongado de corticosteroides
4.2 Valores Diminuídos
Menores que os valores de referência sugerem:
Hipoglicemia persistente
Superdosagem de insulina (risco de hipoglicemia)
Doença hepática com hipoalbuminemia
Hipoproteinemia por enteropatias ou nefropatias
Hipertiroidismo em gatos (aumenta o turnover de proteínas plasmáticas)

5. Limitações e Fatores de Interferência
Embora útil, a dosagem de frutosamina apresenta limitações:
Hipoproteinemia: Reduz artificialmente a frutosamina, mesmo sem hipoglicemia.
Doenças hepáticas crônicas: Afetam a síntese de proteínas, levando à frutosamina falsamente baixa.
Hipertiroidismo: Acelera a renovação de proteínas plasmáticas, podendo diminuir a frutosamina.
Estados inflamatórios crônicos: Alteram o perfil proteico plasmático.
Por isso, a interpretação dos resultados deve ser contextualizada com o quadro clínico e exames complementares (proteinograma, função hepática e renal, perfil tireoidiano).

6. Comparação com Outras Ferramentas de Monitoramento
Ferramenta | Vantagens | Desvantagens |
Curva de Glicemia | Monitora resposta diária à insulina | Invasiva, estressante, variável |
Glicemia Pontual | Rápida e prática | Alta variabilidade, estresse interfere |
Frutosamina | Avalia controle glicêmico médio prazo | Não detecta hipoglicemias pontuais |
Hemoglobina Glicada | Avaliação de longo prazo (não validado em animais) | Inexistente em medicina veterinária de rotina |
7. Evidências Científicas e Estudos Atuais
7.1 Em Cães
Zeugswetter et al. (2022) demonstraram que a frutosamina é um indicador confiável do controle glicêmico em cães diabéticos, mostrando forte correlação com a glicemia média de longo prazo. Além disso, valores elevados foram associados à maior prevalência de complicações secundárias, como catarata diabética.
7.2 Em Gatos
Kuzi et al. (2023) reforçaram a utilidade da frutosamina no monitoramento de gatos diabéticos, especialmente no contexto de hiperglicemia de estresse. A combinação entre frutosamina e glicemia basal foi proposta como protocolo padrão para acompanhamento de felinos diabéticos.
7.3 Estudos Comparativos
Baldo et al. (2020) compararam a frutosamina à hemoglobina glicada em cães, concluindo que ambos os testes possuem boa correlação para avaliação de controle glicêmico, mas que a frutosamina oferece maior aplicabilidade na rotina veterinária devido à sua simplicidade e menor custo.
8. Aplicações Práticas na Rotina Clínica
O uso regular da frutosamina pode:
Reduzir a necessidade de internação para realização de curvas glicêmicas
Facilitar o acompanhamento de pacientes cujos tutores têm dificuldades em realizar glicemias domiciliares
Auxiliar na tomada de decisão terapêutica (ajuste de dose de insulina)
Oferecer maior segurança no diagnóstico diferencial em gatos com hiperglicemia
Recomenda-se a dosagem a cada 3 a 4 semanas no início do tratamento, e a cada 3 meses após a estabilização do paciente diabético.
9. Considerações Econômicas e Acessibilidade
A frutosamina é um exame de baixo custo, rápido e disponível em muitos laboratórios veterinários de apoio. Na Alchemypet, oferecemos este exame com rigoroso controle
de qualidade, baseado nas normas ISO 15189, garantindo resultados precisos para a prática clínica.

10. Conclusão
A dosagem de frutosamina se tornou uma ferramenta indispensável no diagnóstico e monitoramento de cães e gatos diabéticos. Seu uso regular contribui para um manejo terapêutico mais seguro e eficaz, garantindo melhor qualidade de vida aos pacientes e maior tranquilidade aos tutores.
A interpretação adequada da frutosamina, em conjunto com outros parâmetros clínico-laboratoriais, permite ao médico veterinário uma abordagem mais completa e assertiva na condução do diabetes mellitus em pequenos animais.
Referências Bibliográficas
Zeugswetter FK, Beer R, Schwendenwein I. Evaluation of fructosamine concentration as an index marker for glycaemic control in diabetic dogs. Vet Rec. 2022;190(2):e244.
Kuzi S, Mazaki-Tovi M, Ahmad WA, Ovadia Y, Aroch I. Clinical utility of serum fructosamine in long-term monitoring of diabetes mellitus in dogs. Vet Rec. 2023;192(2):e2236.
Baldo FD et al. Comparison of serum fructosamine and glycated hemoglobin values for assessment of glycemic control in dogs with diabetes mellitus. Am J Vet Res. 2020;81(3):233-242.
Crenshaw KL et al. Serum fructosamine concentration as an index of glycemia in cats with diabetes mellitus and stress hyperglycemia. J Vet Intern Med. 1996;10(6):360-4.
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